Wednesday, October 30, 2019

Amizade na Beleza e na Feiura

Duas amigas estão num barzinho no sábado a tarde comendo uma feijoada e tomando uma caipirinha.
- Silvia, eu quero ficar bilionária como a Oprah Winfrey. Ter poder  sobre o meu homem como a Michelle Obama. Arrasar como a Beyoncé.  Maria fala com uma voz fantasiosa.
- Voce quer  ser BEYONCE mas não passa de uma Carolina  de Jesus. Diz Silvia fazendo uma boquinha com o nome Beyonce. E continua. Nem Carolina, porque Carolina escreveu livros. E voce? O que voce fez?  
E se a gente fosse Bonita o que gente Faria? E se a gente fosse Bonita o que a gente seria? E se a gente fosse Bonita o que a gente teria?  Silvia coloca a pergunta na mesa, de certa forma querendo achar uma justifica.
- Olha Maria, acho bom a gente comer antes que a comida esfrie. A braveza na voz da Silvia, tinha o som da raiva, com a melodia do conformismo.
- Será que  a gente teria sofrido assédio sexual de um homem poderoso de Hollywood? Será que a gente se tornaria uma princesa infeliz sofrendo de bulimia? Sera que a gente teria empregadas domesticas para atazanar? Maria continua questionando com a voz baixa mas com o som gritante, angustiante e sedutor do desejo.
- Uma coisa eu sei com certeza, escapei do destino da minha bonita amiga Glorinha. Silvia responde orgulhosamente,
- Que Glorinha? Eu não conheço nenhuma Glorinha. De quem voce esta falando? Maria pergunta curiosa.
- Ok você esta com tempo Maria? Silvia pergunta, louquinha para provar o que não tem prova.
- Não o meu principe encantado esta me esperando, para fazer uma massagem. Responde maria sarcástica.
- Então eu vou te contar a minha historia de Silvinha Feiosa
- Garçom mais uma capinha por favor. Pede Maria
Quando eu morava em Mauá, eu tinha uma amiga inseparável. O seu nome Glorinha, uma descendente de italianos. A gente ia para escola juntos, tomávamos banho juntos e conversávamos.
A minha mãe dizia que não sabia que tanto assuntos, tínhamos para conversar.
- Ok! O que vocês conversavam Silvia. Quantos anos vocês tinham? Perguntou Maria ja envolvida na historia.
- Uns 14, 15 anos, estávamos no ginásio. Respondeu Silvia tentando lembrar os detalhes. A gente conversava sobre Meninos.
-Hum, dona Silvia apaixonada, conta pra mim. Fala maria, saboreando a comida.
- Na verdade, eu não estava, apaixonada, gostando, on tendo interesse em qualquer garoto. Era como se eu soubesse e aceitasse que romance não era para uma garota com a minha aparência.
A Glorinha roubava todas as atenções dos garotos.
-Então a sua amiguinha era a sua rival? Perguntou maria, querendo entrar no conflito da historia.
- Não! Eu não me importava que ela tivesse mais atenção dos garotos. Isso era  normal, afinal ela era bonita. A gente simplesmente sabe que é o que acontece e continuará acontecendo, dia, após dia, dia após noite, os meninos se encantaram com a beleza. Eu compartilhava com a Glorinha as suas aventuras, conversávamos sobre as cartinhas, que ela recebia, as olhadas, as paqueradas. Sem ao menos questionar, porque não eu? Que era assim que era, e tudo bem. Justifica Silvia.
-Pelo jeito voce não mudou muito não.
- Na periferia, o cinema, o teatro, tudo acontecia na tela da Globo. A Rosinha era a estrela da rua, da escola, que se apaixonou pelo galã 
- Quem era o Galã de Novela?
- Era o meu vizinho, ele morava no fundo de minha casa. E eles começaram a namorar. A Glorinha teve mais sorte, que sua irmã, que trabalhava de empregada,  ela se engravidou do patrão. A patroa madame, fez o aborto dela, e depois do aborto ela foi demitida. Fala Silvia com voz de pena
- Garçom por favor o que vocês tem de sobremesas.
- Eu morava numa casa de aluguel, que era em frente da casa de blocos da Glorinha. Mas eu me mudei para dois quarteirões pra frente. E ai a nossa amizade foi interrompida.
- Dois quarteirões? Pergunta Silvia confusa.
- Eu me mudei para favela. E quando voce muda pra favela, você perde todas as honrarias do dia para noite, sem explicações. Apesar da pobreza de todos na comunidade. A gente pode ter o mesmo poder econômico, mas morar na favela, nos desqualifica. Eu me tornei desqualificada,  é como que você pegasse uma doença contagiosa, que pode matar, e todos passam a ter medo de manter o contato com você e pegar a sua doença.
- Uau. Isso me parece estupidez. Conclui Silvia.
- Pode ate ser, mas as coisas são assim e a gente não questiona, apenas vive, sem saber que la fora a vida existe. Ela era bonita, eu aceitava, depois mudei pra favela. Eu e ela simplesmente aceitamos o fato.
E voce continua aceitando os fatos. Diz Maria balanço a cabeça de lado para o outro.
- Na periferia voce vai construindo a sua casa aos pouquinhos. Normalmente um cômodo, depois de uns anos, você pode construir outro cômodo, quando um dos filhos casa, a família constrói mais um cômodo, e o novo casal passa a morar neste cômodo. Então a familia da Glorinha construiu um cômodo a mais em cima do cômodo, tipo Sobradinho, e este novo cômodo, passou a ser a casa da Glorinha. A minha família mudou para o interior, para um conjunto residencial na cidade de Piracicaba. No momento perfeito, mudamos.
- Porque perfeito " Silvinha Feiosa"? Maria questiona utilizando o auto apelido que a Maria havia se dado
- Porque mudamos no Domingo e o nosso barraquinho no morro, caiu em um deslizamentos  de terra, na próxima quarta, mas isso já é  outra história. Passado uns anos, eu retornei a cidade de São Paulo. Eu fui com o meu parceiro visitar a Glorinha. Eu não tinha mais o endereço, mas não são so as casas que levam anos para serem construídas na periferia, a periferia normalmente continua igual por anos.
A Rosinha estava no mesmo cômodo, encima da casa dos pais. E o seu entretenimento continuava sendo a tela da globo. A casa dos pais, agora tinha aumentado, porque os irmãos tinham casados e construído mais cômodos no quintal. O Niro não estava, ela apenas um filho, em torno de 10 anos.
- Uau, vocês devem ter passado o dia colocado a conversa em dia.
- Ao contrario, não teve conversa. Eu havia aprendido que existia um mundo além da tela da globo. E agora nem televisão eu assistia. Eu não contei nada, exatamente nada, do que eu havia vivido, porque eu sabia que qualquer historia que eu contasse, seria inconveniente para a realidade da Glorinha. Apesar dos anos  passados, eu ainda gostava muito dela. A minha segunda visita a Glorinha, eu fui junto com o meu filho, que estava em torno de dois anos de idade, havia transcorrido mais ou menos 9 anos desde qu visitei a minha bonita amiga Glorinha. Em frente da casa, tinha uma garota grávida. Então decidi perguntar a jovem com barrigão. Se ela poderia me informar em qual casa que minha bonita amiga Glorinha morava.
- Ma voce não disse que a periferia não muda. Desafiou maria
- Surpresa! A garota grávida era a mulher do filho da Glorinha. E o bebê na barriga seria o futuro netinho da Glorinha. E a jovem garota e seu filho também moravam la. A casa tinha sido aumentada.
Eu fiquei feliz de ver a minha grande amiguinha de adolescência. Eu agora tinha tido uns baques na vida, mas mesmo assim, não falei nada a respeito de minha vida. Porque a Glorinha continuava exatamente vivendo a mesma vida de quando éramos adolescentes, somente com filho, nora e agora um netinho a caminho. E naquele momento, eu senti uma gratidão por não ser bonita como a Glorinha. Provavelmente se eu fosse bonita como a Glorinha. Eu estaria assistindo TV, limpando a casa, e deixando a vida passar na minha frente. Diz Silvia pensativa
- Você ja pensou que voce poderia estar feliz. Agora tem o Facebook. Comenta Maria completamente envolvida na historia da amiga.
- Olha eu não sou superior a minha bonita amiguinha. Eu não fiquei rica, eu não mudei o mundo.
Agora que estou  de férias. Estou pensando em visitar o meu passado, eu gosto de visitar o meu passado, eu somente não quero permanecer lá.
- Qual foi a ultima vez que você a visitou? pergunta Maria
- Agora fazem uns 17 anos. Eu mudei para os Estados Unidos, eu me casei, o meu filho cresceu, está na universidade. Eu tenho várias histórias, que eu gostaria de compartilhar com ela, mas eu a amo, para fazê-lo. Sera que ela já tem bisnetos?
- Sera que a beleza foi responsável? Voce realmente acredita nisso Silvia?
- O que é beleza e o que é feiura Maria? 
- Silvia qual foi a pessoa mais feia que você já conheceu? Maria pergunta imediatamente
- A pessoa mais feia que eu já conheci? Hum.. A minha irmã, um dia chegou em nossa casa, nos falando a respeito do marido de sua professora da quarta serie, a dona Neuza: "- Meninas, vocês precisam, ver o marido da dona Neuza, ele é muito feio, feio mesmo, parece um macaco."
Nós somos sete irmãs, e todas nós, temos a nossa opinião, chegamos a conclusão que não existiria alguém tão feio, como a minha irmã estava tentando nos convencer.
Um dia minha irmã, nos falou, vem ver o marido da dona Neuza, ele vem vindo. A gente correu para a frente do barraco, para ver o homem que estava passando em frente. A nossa casa ficava no alto do morro, tinha que subir vários degraus para chegar a porta, isso nos permitia ter uma vista panorâmica da rua.
Meu Deus do Céu! A minha irmã tinha completa razão, ele era o homem mais feio, que eu havia visto em toda minha vida.
A minha irmã, se sentindo gloriosa, com a nossa confirmação. Teve que comentar: - "É eu falei, mas você não acreditaram."
Passado um certo tempo, dona Neusa veio nos visitar. Ela perguntou a minha mãe, se uma das filhas de minha mãe poderia trabalhar de empregada para ela.  Como eu estava desempregada, lá fui eu, trabalhar para dona Neusa.
A dona Neusa trabalhava como professora o dia todo. De manhã em uma escola, e a tarde em outra escola. O seu marido era mecânico e trabalhava numa das fábricas de automóveis na região. Eles tinham um casal de filhos, uma menina de seis anos chamada Carlinha e um menino de dez anos, chamado Washington. As crianças foram sortudas porque na mistura dos genes. A feiura não os pegou, eles eram bonitos. A dona Neusa era bonita.
Bom! Eu teria que limpar a casa, lavar, passar, cozinhar, e me responsabilizar pelas crianças, em todos os sentidos, e enviá-los a escola. 
O marido da dona silvinha se chamava Pedro. O seu Pedro trabalhava, uma semana na parte do dia, outra semana na parte da noite. 
A semana que o horário dele era noturno, ele almoçava comigo e  as crianças. Eu repetia a mesma ladainha toda vez que iamos almoçar. A ladainha no qual, ele dizia que preferiria ser um cachorro americano,  que ser brasileiro. É ele preferiria ter nascido um cachorro na América. Além disso, as roupas dele, com exceção dos macacões do trabalho, tinham que ser todas lavadas em lavanderia, jamais em hipótese nenhuma, eu deveria lavar as roupas dele. Isso era mais difícil, para mim entender, do que a questão de ser cachorro, porque para mim as roupas dele, eram ridículas. Ele usava aquelas roupas do começo dos anos setenta, que meu pai também havia usado, quando estava em moda, mas que os homens sensatos haviam abandonados. Mas por alguma razão, o seu Pedro continuava usando aquelas calças de boca largas, acessórios como cinturão e a corrente de medalhão. Ele se vestia como a dupla de  Cantores sertanejos Jose rico e Milionário.
- Nossa nessa época eu nem tinha nascido! Maria comenta, como que tentando lembrar a amiga Silvia da sua presença.
Ele não era cantor, mas parece que foi usando esse álibi, que ele conquistou dona Neusa.
Eles eram mineiros, porem o seu Pedro havia migrado para Sao Paulo. E quando ele retornava  a cidade natal, ele ia com roupas bonitas e elegantes. Dizia que tinha uma banda de música e que estava muito bem de vida em São paulo. Provavelmente dona Neusa sonhava em ter uma vida melhor, acreditou na historia dele, ou quem sabe, ela se apaixonou. É possível se apaixonar pelo homem mais feio do mundo?
Mas enfim ao se casar ela foi para São Paulo com ele, apenas para descobrir, que ele era um contador de histórias(mentiroso), e que as roupas que usava, eram roupas emprestadas dos colegas. Eles foram morar na periferia de Sao Paulo, num cômodo de aluguel, no fundo de uma casa, dona Neusa teve que arrumar emprego, para poder mante-los. Porém o aluguel desta casa, terminou na delegacia. O seu Pedro começou a ter relações sexuais, com a esposa, do dono da casa. E o caso terminou na delegacia. Dona Neusa disse que o delegado deu um conselho para ela: 
-" Filha abandona este homem, ele não presta, volta para sua família." Mas como você pode perceber, ela não ouviu o conselho do delegado. A dona Neusa adorava me contar esta história, como dizendo, você vê o quando  tive que trabalhar, para construir tudo que tenho agora. Um queria ser cachorro nos Estados Unidos, o outro a mártir  do cachorro?? 
- Como assim" Pergunta Maria
- Eu não tenho a resposta para muitas coisas, e por acaso esta; é mais uma coisa, que não possuo a resposta. Quando somos empregadas numa casa, sabemos de tudo. Se alguém quiser saber a verdade dos moradores de uma casa, pergunte a empregada domestica. 
Logo descobri porque o dinheiro do seu Pedro não podia contribuir muito para o orçamento da família. Pelo jeito ele continuava pulando a cerca, e ao pular a cerca ele gastava principalmente com presentes. Apesar de saber de tudo que se passa numa casa, a empregada sabe manter silencio, como a figura dos três macaquinhos que tapam a boca, os olhos, e os ouvidos. A empregada, nada ouve, nada vê e nada fala.
Um dia eu estava passando roupa, as crianças ainda na cama. Quando um corpo masculino, me abracou por trás. Que susto! Oh isso mesmo, você já sabe, era o homem maio feio do mundo.
- O que você fez? perguntou Silvia com uma voz de curiosidade e nojo.
É  incrível, como a sorte aparece na hora certa, em seguida Washington sai do quarto e o seu Pedro, tira aquelas mãos hediondas e  nojenta de mim.
Agora eu tinha mais um problema, não apenas de me calar, mas de me salvar. O homem ficava uma semana toda em casa. 
- O que você resolveu fazer? pergunta Maria
- Eu resolvi fazer tudo  na parte da manhã quando as crianças estavam em casa, e ele ainda dormindo, e depois do almoço, ficar no quintal lavando as roupas sujas, Cantando: LAVA ROUPA TODA DIA QUE AGONIA... 
Os macacões de trabalhar dele, eram  cheio de graxas, mas eu conseguia tirar tudo. Eu ficava no tanque, que era encostado com a cerca da vizinha, a vizinha não tinha ideia, mas ela era a minha segurança. quando ele saía, eu ia para dentro da casa fazer o meu trabalho, esperando que ele demorasse a voltar. Isto não era tão simples, quando dona Neusa quando retornava do seu trabalho, ela ficava reclamando do meu serviço. 
- Será que ela não percebia, que havia uma diferença nos seus serviços, na semanas que o marido dela estava de folga? Questionou Maria
- Patroas. Mas enfim, o meu pai comprou uma casa no interior do estado, isso significava que eu iria partir. Dona Neusa um dia chegou com uma calca jeans para mim, eu tinha 16 anos, e como todo mundo eu amo ganhar presentes. Ela me deu o presente porque ela estava tentando me convencer, ha não mudar com a minha família. Se eu ficasse com ela, ela iria me dar tudo, eu iria ter uma vida melhor do que com a minha família. O seu Pedro que comprava presente para mulheres, me deu uma camera fotográfica. A unica coisa era que, neste embalo de empregada, eu não podia dizer para dona Silvinha do presente que seu marido me deu. 
Um dia dona Neusa, chega em casa no meio da tarde, muita brava, procurando por documentos. E dizendo que agora, ela iria se separar. Ela havia descoberto algumas das historias do seu Pedro. Ela achou algum bilhete na jaqueta da roupa dele. Como ela demorou tanto tempo para descobrir? 
Como eu percebi que ela realmente estava decidida a se separar, eu contei a minha historia, o porque da casa não estar do jeito que ela queria, quando retornava do serviço.
Ela ficou chocada, porque eu não contei antes, patati-patatá...
Eu me mudei, passados uns dez anos, voltei a cidade.
 - No mesmo dia que você foi visitar a Glorinha? pergunta Maria
- Isso mesmo no mesmo dia, a dona Neusa continuava la, mas o seu Pedro também, ela não havia se separado do homem mais feio do mundo.
Eu fiquei pasma, não tocamos no assunto, somente que ela continuava casada. Naquele momento me arrependi de ter contato para ela a verdade,  mas aliviada do homem mais feio do mundo não estar em casa. Onde ele estava? Eu ate podia imaginar... 
Alguns anos depois quando voltei mais uma vez, para visitar o meu passado, decidi que era melhor não visitar dona Neusa e o seu marido, o homem mais feio do mundo. Provavelmente dona Neusa não concordara comigo. O que é feiura e Beleza?
- Um conceito como poder e riqueza. Fala Maria
Mas você acha que a gente pode ter esses conceitos?  Silvia pergunta, não esperando resposta, mas feliz por ter uma amiga que pode ouvi-la.








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